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03 de setembro de 2019
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acho que não tem um dia em que eu não pense em acesso. Acesso é um grande privilégio. Estudar sem ter que trabalhar em paralelo, aprender idiomas, artes, sejam elas marciais ou não, seja lá a atividade que for, por escolha própria e não obrigação. Ter opções todos os dias é um grande privilégio.

depois do ensino médio, morei longe de todos os lugares em que escolhi estudar. No começo fazia questão disso, mesmo que no começo não tivesse consciência disso. Eu já tinha afan por pessoas que vissem algo diferente de mim, vivessem algo diferente de mim, mas chegavam a um ponto que em comum, nossa ponte – o curso, o trabalho, a universidade ou a avenida em que nos esbarramos no random da vida.

inundei-me de pensamentos, enquanto atravessava a ponte do Rio Reno, ponte que não é minha conexão comum no dia a dia, mas que sempre posso cruzar, que ela também é minha. Fui até o final da linha de uma das estações, ainda nunca pisadas. Parecia outra cidade. Bebês ainda mais rosados. Música típica em um restaurante, silêncio total alguns passos adiante.

retornando ao ponto que nem sei mais de onde comecei, entrei em “modo desimportante, deixei a velocidade a encargo da composição e fui me ocupar em contar a quantidade de placas que cruzaram meus olhos, pessoas. As estações. Deixei de lado a preocupação com o tempo, que andou nas últimas semanas cronometrado. Algumas mudanças que, mesmo no curso das coisas boas, é como um saco de cinco quilos de algodão doce, continua contendo cinco quilos, por mais que carreguemos algo tão doce. A gente precisa se adaptar, amadurecer rápido, senão não dá conta. Que o glamour é um recorte de fotos selecionadas. Tem que ser realista de que, não só nos filmes, muitas pessoas vivem de mais de um emprego e ainda estudam, atravessando a cidade de forma precária, cara, e se sem saber o se Elis Regina está certa sobre os perigos na esquina ou podemos ir tranquilos pelas ruas.

pensei no quanto daria toda aquela viagem que vivi nesse domingo, cortando 4 partes da cidade. Pensei no quanto minha cidade natal não me permitia andar. Cada Zona com seus entraves, seus limites invisíveis e no quanto se gasta, em tensão e em card, desde o carregamento até o embarque. Fiz umas contas: se cada perna aqui custa uns 3 euros e eu viajei 5 vezes até agora, lá se vão 15 euros, pelo menos, em apenas um dia. Como aqui existe ticket mensal, por quase 100 euros, se eu flanar assim pelas janelas dos coletivos nesse ritmo, em uma semana, terei gasto esse valor.

quando tenho tempo, “erro uns trens” pra ver onde dão. A ausência de risco de cair em uma zona em que não posso entrar sem aviso é praticamente uma intimação a ir mais longe. Posso sair sem dinheiro, que não corro risco de apanhar por não ter o que entregar a um assaltante. Posso ter “zero dinheiros” ou andar com 1 euro, tomar sorvete e esse ser o melhor fim de semana do ano. Posso gastar apenas pneu de bicicleta e chegar a uma cidade vizinha, se eu quiser.

há quem não concorde com “sistemas assistencialistas”, mas medidas desse tipo que fazem com que a vida fique menos acelerada – para um estrangeiro que começa do zero, isso só demora mais.

um exemplo: se eu ganhar 2x mais que você, pagarei mais em educação e impostos em geral. Ou seja, não adianta correr, se ausentar da vida trabalhando – é, tem gente que se ocupa de mais para não viver a realidade -, que você só vai conseguir ficar, no máximo, nos hotéis 5 estrelas e a “cúpula dos comuns” em um de 3. O que é nada mal. No Brasil, enquanto o empregado ganha X, comumente o empregador ganha 10X, pelo menos, variando de área, mesmo se analisarmos áreas com profissionais com nível superior. Muitas mensalidades são mais caras que os salários. Algumas pessoas nunca conseguiram viver os salários de suas profissões, por um problema estrutural de nosso sistema educacional e distribuição de oportunidades. Tudo isso é acesso, privilégio.

dentro do sistema alemão, que possui inúmeros problemas, claro, mas analisando somente este ponto, há vantagem: se você ganha até uma cota – que não faço ideia de qual seja, você tem direito a pagar metade do ticket mensal -, obtendo desconto de 1/3 no cinema, meia-entrada e proporcionais em programações educativas e culturais da cidade. É pensar/vivenciar que muita coisa por aqui é possível. Então, por mais duro que muitas vezes seja ou pareça, seguimos/resistimos.